Friday, February 19, 2010

Trabalhar Por Prazer Pt2

É um equilíbrio muito fino, tenho que admitir. Quando não se está bem, tudo serve de arma de arremesso. As rotinas, a personalidade, os amigos, o tempo e... o trabalho. O pior é mesmo conciliar três coisas fundamentais.
O trabalho, que como disse anteriormente, não se pode fugir.
Aquilo que se tem realmente prazer em fazer.
E a chamada descompressão. A socialização e o tempo para olhar para as paredes, coçar a micose e anhar.
Diria que este é o segundo nível, dado que o primeiro foi aquele focado no texto anterior. Demorou algum tempo a aceitar que não posso passar o tempo todo, 24 horas por dia, de volta da música, da ilustração e da escrita. Foi um longo e doloroso processo que julgo ter atravessado com sucesso.
Depois de ter a tranquilidade de aceitar o passar mais de 40 horas semanais entregue ao ganha-pão (ou dinheiro) surge uma nova inquietação. Conciliar o tempo livre de tudo o que se quer fazer com o tempo necessário para espairecer. Pegando no meu exemplo, que é o que conheço melhor, temos um sem número de actividades, projectos e intenções - blogs, livros, discos, desenho, arquivo e gestão de biblioteca de som e imagem - e muito pouco tempo para repartir por isto tudo. E se o tempo é pouco para repartir por todas estas actividades, a coisa piora quando o corpo simplesmente não se quer mexer. Quando não há inspiração, paciência ou energia para fazer aquilo que disse que ia fazer. E quando isto se passa muito tempo sem interrupção, ou num dos momentos menos positivos em termos de energia, o facto de se sentir que não se tem vida é coisa para desmoralizar qualquer um. Não estou a falar do artista/escritor/músico que consegue viver da sua arte. Estou a falar de todos os restantes mortais que gosta de fazer umas brincadeiras nos tempos livres mas que não tem reais ambições. É impossível não chegar a uma altura de desânimo - com o hobby em questão ou até mesmo uma conjugação de factores variados - e de não se por em causa o tempo que se "perde" com essas actividades. Enquanto outros vão à praia, às compras, ao café, a malta fica em casa, ou na garagem, ou na biblioteca, a fazer aquilo que gosta por sentir que essa é uma parte do que é, daquilo que se sente realizado a fazer. No entanto, é sempre necessário combustível para se ter energia para isso, mesmo quando se pensa inocentemente que a actividade em si é auto-sustentável. Descobre sempre da pior maneira que não é. Por vezes o abandono chega a ser de muito tempo, até se esquece da razão, do porquê se ter começado.
No fundo é tudo como disse no início, um jogo de delicados equilíbrios entre mergulhar e vir ao de cimo para respirar de vez em quando. O problema é que as coisas lá embaixo tornam-se tão absorventes que fazem com que nos esqueçamos de vir ao de cimo respirar.

Por vezes esqueço-me de vir ao de cimo, provavelmente quando tiver dominado esse fino equilíbrio, tenha passado para o terceiro nível.


A forma de

Thursday, January 07, 2010

Trabalhar Por Prazer Pt1

Já me debati com esta questão muitas vezes no passado e não foi em meras dissertações filosóficas, foi em depressões angustiantes sobre o sentido da vida. Numa altura em que estava a começar a querer expressar-me artisticamente, naquele caso em específico, pela música. No entanto a minha vida não permitia a que pudesse me atirar de cabeça porque tinha que ganhar dinheiro. Essa obrigação era uma opressão, afinal tinha que fazer algo que não queria para ganhar dinheiro mas que me impedia de me concentrar naquilo que gostava de fazer mas que não me trazia rendimento. E dez anos passaram, mais coisa menos coisa. Foram precisos dez anos para que mudasse a minha maneira de pensar ou sentir. Para que pudesse sentir uma certa paz de espírito e aceitação com o estado presente das coisas e principalmente, que me pudesse aperceber que apenas desta forma tenho a liberdade que preciso. Todos nós trabalhamos por dinheiro - todos nós, os que trabalhamos, claro - e fazêmo-lo porque precisamos de comer, pagar as contas e todas aquelas cenas à quais não podemos fugir e às quais mergulhamos. E nos tempos livres somos... livres. Para criar e fazer o que desejamos. Porque o queremos fazer. A partir do momento em que temos de o fazer para ganhar dinheiro, teremos que agradar alguém, teremos de fazer para alguém que não nós próprios. Ok, não vou cair na ilusão de que no mundo da arte não tem de se fazer compromissos, mesmo daqueles que não vivem da arte que criam. Há sempre compromissos, porque é impossível fugir do meio em que se está inserido mesmo que o tente fazer consciente. Mas o ter de trabalhar em algo que amamos fazer às ordens de outra pessoa ou com a pressão de atingir certos objectivos que não a satisfação pessoal resulta em frustração.
Ou melhor, tudo o que se faça por obrigação pode resultar em frustração.
O segredo é não fazer por obrigação aquilo que se quer ter prazer.