Tuesday, June 17, 2014

Equilíbrio

Há algo de engraçado como nós, portugueses, vivemos as coisas. Digo nós, portugueses, porque é a realidade que conheço, minimamente, e aquela onde estou inserido. Costumam dizer que somos um país de brandos costumes, ou pelo menos, é essa a nossa imagem de marca. Será que corresponde inteiramente à verdade? As reacções à derrota de Portugal é mais um exemplo de como andamos nos extremos, seja da apatia seja da exacerbação idiota. Já vimos este filme antes, não já? Uns anos atrás, no mundial da Coreia, quando a selecção saiu do nosso país para estagiar para Macau, uma escolha nunca totalmente esclarecida, o nosso primeiro ministro da altura – o tal que tinha visto armas de destruição maciça no Iraque quando elas não existiam – mandava um apelo entusiástico para a selecção, “tragam a taça, tragam a taça!”. A selecção teve uma das piores prestações de sempre colocando as expectativas de todos no lixo.

Não é só o futebol. Na verdade, o futebol é apenas uma desculpa, apenas uma pequena amostra daquilo que somos. Peguemos na política. Queixamo-nos do governo mas na hora de votar, a abstenção é sempre  a vencedora. Tudo bem, é um sinal do descontentamento com a classe política, dizem alguns. Talvez. Existem sempre partidos que não têm hipótese de chegar ao poder e que servem bem para mostrar o descontentamento fazendo uso do poder do voto. Contudo, na hora de fazer alguma coisa, esperamos sempre que a situação mude por nós e que tenhamos razão para continuar a criticar. E os que votam… votam num partido (de poder) para nas eleições seguintes votar no outro partido (de poder). A oposição deitou abaixo o governo de Sócrates por causa das medidas que queria implementar para impedir a entrada da Troika. O governo que foi para lá, da oposição, colocou em prática todas as medidas que foram vetadas em parlamento e agravou-as como consequência da intervenção do F.M.I.. No entanto, já ninguém se lembra do orçamento de estado que ditou a queda do governo. De esquecimento em esquecimento, acreditamos naquilo que a televisão ou os media nos diz e obedecemos como boas ovelhas para quando berrar mais alto ou nem sequer berrar. Como ratos num labirinto, continuamos a seguir os pedaços de queijo que nos deixam apenas num beco sem saída.

Voltando ao tema inicial, o futebol é bom para termos noção desses extremos. Daqueles que falam quando a equipa dos outros perde e dos que se calam quando a sua perde e ficando ofendidos pelos outros fazerem aquilo que eles próprios fizeram pouco tempo antes, revelando a tal memória muito curta. É o desporto rei, arrasta multidões, tem um efeito positivo nos jovens, unindo a sociedade, embora também tenha também os seus lados menos positivos, como a corrupção, o fanatismo e a violência causada por aqueles que o vêem como apenas uma desculpa para se sentirem superiores aos outros, já que não o conseguem fazer de outra forma nas suas vidas, preenchidas por pouco mais.

Toda esta questão serve apenas para dizer que nem o futebol é a melhor coisa do mundo, nem é o anticristo. Nem o Ronaldo joga por 11, nem devia ter ficado em casa. Nem somos os melhores do mundo, nem somos os piores. O que o futebol é, tal como a política, tal como a arte, tal como as coisas importantes, tal como as coisas frívolas, tal como tudo que seja passível de causar paixões e ódios, algo que nos despe e nos revela tal como somos, para o melhor e para o pior. E o que somos é desequilibrados. Bom senso é uma palavra cujo significado cada vez nos escapa mais.

Vivemos demasiado as vitórias que ainda não conquistamos e enterramos demasiado cedo os vivos que ainda não estão mortos. Esperamos demasiado que as soluções que precisamos venham dos outros e não de nós próprios. Que os problemas se resolvam por eles próprios. Colocamos demasiado as nossas esperanças em felicidades momentâneas e condenamos ou colocamos em causa rapidamente tudo o resto quando essas esperanças são beliscadas.


Se calhar os brandos costumes vem do facto de seguirmos a corrente sem questionarmos se queremos sequer estar no rio.

Friday, March 14, 2014

Breve Ensaio Sobre O Medo Pt. 2: A Mudança

Quando o medo se instala por alguém, as nossas acções condicionam-se. Imagina-se a pessoa a sair da nossa vida e sente-se um pânico, um aperto no coração difícil de suportar. Pensa-se "como posso viver eu sem tal pessoa?" Quando aquilo que é uma fantasia doentia começa a ter reflexos na realidade, o pânico leva ao desespero e tudo começa a ser permitido. Tudo é opção para não se perder aquela pessoa que se sente está a perder. E quanto mais se faz, mais a pessoa se afasta, quanto mais se esbraceja e esperneia, mais aquilo que não queremos se torna iminente.

Antes de chegar a este ponto, existe um outro, não menos saudável. As pessoas estão juntas, em qualquer tipo de relação (amorosa, amizade, profissional) quando faz sentido. Quando há algo natural que as mantém próximas ou em contacto. Quando há algo que faz mudar essa proximidade e uma das partes não quer perdê-la, tenta-se mudar algo para que essa proximidade volte a ser o que era. Quando as mudanças são naturais, não existe nada que se possa fazer para tentar recuperar o que já foi e não é no momento. Ou se aceita, ou perde-se muita energia a resistir a tal até que não se tem alternativa - por vezes, bastante tempo depois - e tem de se aceitar.

E quando as mudanças não são naturais? Quando alguém muda apenas para agradar outra pessoa que supostamente lhe diz que a aceita tal como ela é, mas na verdade, critica sempre quando há manifestações de comportamentos que considera inaceitáveis. Comportamentos que fazem parte da personalidade da pessoa. Ela muda. Anula-se a si própria. Em nome do amor, em nome de uma carreira, até em nome de uma amizade.

"Eu gosto do amarelo"
"Não é correcto que gostes do amarelo"
"Ok... posso gostar do vermelho?"
"O vermelho... também não é de bom tom. Como é que alguém pode gostar do vermelho? E o verde, o verde é bonito. Tu agora gostas do verde."
"Eu adoro o verde desde sempre, é a minha cor favorita."

Pode-se mudar o que se quiser, pode-se fazer o que quiser, mas a verdade é que ninguém está tanto tempo connosco do que nós próprios e quando se quer agradar, tentar prender alguém, anulando o que se é... quando se tenta ser de forma pouco natural o que não é, quando se tenta mudar as condições... acaba-se sempre com a mesma pessoa de sempre - nós próprios - e um espelho à frente, para nos lembrar de que há certas coisas que não se conseguem mudar. Certas coisas nunca vão ser mudadas, por muito que nos enganemos a nós próprios. O espelho nunca engana, mesmo quando se está de olhos fechados ou de costas voltadas para ele.