Sunday, June 01, 2008

Nostalgia

Hoje uma amiga minha fez-me uma pergunta que eu próprio fiquei surpreendido com a minha resposta. Ela perguntou-me se eu não tinha saudades dos tempos da escola. Isto a propósito de ela andar numa onda mais nostálgica. Pareceu-me que ela tenta fortificar esse sentimento com a música.
Eu sempre me considerei como alguém nostálgico. Sons, cheiros e imagens. Estes são os meus passaportes para o passado. Normalmente quando a nostalgia ataca, a melancolia vem sempre como companhia. Um sentimento pouco inteligente de "antes é que era bom". Pouco inteligente mas inevitável, principalmente quando existe um certo vazio nas nossas vidas. E esse vazio acaba por vir à superfície de vez em quando.

"Não tens saudades dos tempos da escola? Dos convívios, do pessoal...?"

Eu respondi que não. E foi a primeira vez que me apercebi disso. Eu, o nostálgico por natureza, não tenho saudades do passado, pela primeira vez na minha vida. E é libertador por um lado. Estou livre. Livre de tudo, de bom ou de mau do passado. Mas também demonstra uma certa indiferença emocional e provavelmente podem achar que foi um momento mau da minha vida. Não foi o caso. Grandes amigos, grandes experiências e muito mais vida.
Mas acabou.
Talvez tivesse antes os ataques de nostalgia por me recusar a aceitar que tinha acabado.
Mas acabou.
Estou livre.

Monday, April 28, 2008

A Fome

Somos insaciáveis. Queremos mais e mais e mais para disfarçar o quão perdidos estamos. Preciso disto, preciso daquilo, só nessa altura poderei ser feliz. A melhor forma de nunca passar pelo problema da desesperança em relação à fome será pedir o impossível e assim sabe-se que se vai ter sempre fome e que a solução pode cair, por milagre, no nosso joelho. Se se for por etapas, então a vida vai ser um constante de desilusões. Sonha-se com algo, deseja-se algo muito e consegue-se atingir esse objectivo. Passado pouco tempo é como se não se tivesse nada. Então precisa-se de se desejar uma outra coisa. Algo que faça com que se seja mais feliz, para tapar o vazio, matar a fome. Deseja-se, precisa-se, consegue-se. E vai-se acumulando coisas, pessoas, experiências. Sempre para tapar o vazio que continua a crescer. Até que se está muito cansado e velho. Não há forças para agir e espalha-se pelo corpo e manifesta-se sobre a forma de tristeza. Olha-se para trás e o que se vê não é tudo o que se conquistou, não é tudo o que se viveu. Apenas o que não se têm e o que não se viveu. A fome escava o vazio de cada ser humano. E apenas quando é tarde demais é que ele se dá conta que a fome nunca podia ter sido morta com coisas, com viagens, experiências ou pessoas. A fome devia ter sido morta com ele próprio porque o vazio de cada um é do tamanho de si próprio.