Tuesday, April 18, 2006

(A)Normalidades

Acontece-me frequentemente ver-me no meio destas situações. Estou a caminhar pela rua, a passear o cão, sozinha, com amigos, o que seja e passo por um grupo de
adolescentes (tanto mais novos como mais velhos do que eu) que, por obra do acaso, se começam a rir e a fazer comentários sobre a minha roupa, o penteado, a cara ou até mesmo a minha suposta personalidade (que, como todos sabem, anda escrita num letreiro colado à testa).
A minha primeira reacção é dizer algo com cardinais, caveirinhas e cifrões q.b (como na banda desenhada). Mas, quando já me afastei um pouco e a raiva esfria, só consigo sentir tristeza.
Ora vejamos...eu não me considero especialmente repugnante, não ando nua nem de pijama na rua, não falo alto, não tenho nenhuma característica relevante na face ou no corpo e até penteio o cabelo todas as vezes que me lembro de o fazer. Não me visto de homem nem de Minnie, não tenho mensagens estampadas na camisola e não uso mini saias de Verão com botas de pêlo.
O problema não são os olhares insistentes mas sim a mentalidade que está por detrás dos comentários, dos risinhos e até de algumas ocasionais ofensas. Tenho 99% de certeza que quase todas as pessoas que têm este tipo de atitude já viram várias pessoas com uma maneira de vestir parecida mas pelos vistos não foi o suficiente para aprenderem a ter um pouco de respeito pelos outros.
Confesso que me sinto como um animal do Jardim Zoológico, com uma data de garotinhas a taparem o riso com a mão, de senhoras velhinhas escandalizadas e de mães a afastarem os filhos do meu caminho. É incrível o modo como formam julgamentos através da quantidade de eyeliner ou da altura da sola das botas.
Ainda se compreende que detestem, que achem feio, inestético, absurdo, etc...Mas porquê exteriorizar os seus julgamentos, porquê a necessidade de ofender com comentários desagradáveis e piadinhas de mau gosto?
Já me disseram tanta coisa na rua que a raiva já é quase nenhuma...mas o sentimento de humilhação continua.
Entre "O Carnaval é só em Fevereiro" e "Deve ser doente", passando pelos habituais "puta" e preciosidades linguísticas do género (acho engraçado como chamam tão facilmente puta a alguém que anda vestido dos pés à cabeça e se acha que as meninas que só falta virem de bikini para a Escola são a norma), há de tudo, para todos os gostos. Baixinho ou em voz alta, ao ouvido da amiguinha do lado ou gritado de um lado para o outro da rua, é como calha ou como as costinhas quentes permitem.
Não desejo que agora criem uns «Morangos com Açúcar» "agózados" e a Super Pop passe a ter uma secção a ensinar as meninas de 5 anos a esborratarem-se com rimel e lapis preto mas penso que alguém devia a ensinar a estas pessoas tão respeitadoras da sua moral, quais cidadãos exemplares, o que é o respeito e que este serve tanto para o patrãozinho a quem lambem as botas como às meninas de tranças que passam ao lado.
Entretanto, vou continuando a fazer uso da velha técnica: cerra os dentes e olha em frente. Resulta...quase sempre.

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