Friday, May 06, 2016

E Depois da Mudança?

Na última posta aqui, despejei um manifesto muito pessoal sobre o acto de mudar, na véspera de avançar para uma das grandes mudanças da minha vida - e assustadora - e agora quero falar sobre aquilo que acontece depois de começarmos a mudança. O que é que muda realmente? O mundo acaba? Começamos a voar por nos sentirmos tão leves? Estamos iluminados e atingimos a felicidade eterna enquanto estamos cá, na Terra? O exagero atrás serve para mostrar o exagero do medo. Temos tanto medo que nos impede de avançar, de tentar, porque só entendemos extremos. Só reagimos ao tudo ou ao nada. Não conhecemos o equilíbrio, não sabemos o que é isso, porque também não é isso que nos ensinam durante toda a vida. Não culpo os nossos pais, coitados, tão ou mais vítimas que nós de uma sociedade que quer consumo e igualdade, estupidificação para não haver contestação, para que aceitemos aquilo que está na mesa, aquilo que nos é empurrado pelos sentidos abaixo e adentro.

O que é que muda depois da mudança afinal?

Quando decidimos que já estamos fartos do tudo ou nada, quando já não conseguimos aguentar o histerismo e a futilidade do que os mass media considera importante e quando nos desligamos de tudo e de todos, o que é que muda?

Nada.

Porque o desequilíbrio está dentro de nós. Não adianta procurar o equilíbrio fugindo das pessoas, dos empregos ou seja do que for quando por natureza temos algo que nos desequilibra, algo que nos inquieta, que nos irrita. Raiva, mágoa, dor, inveja, tristeza, depressão. O problema não é do mundo, o problema é nosso. O mundo apenas é aquilo que fazemos dele e o que fazemos dele é uma fábrica trituradora de ossos e carne daqueles que não aguentam o ritmo. Sem tempo para pensar, sem tempo para sentir, sem tempo para nós, para os que amamos. Sem tempo... para viver. E para quê viver? Trabalhar até à exaustão, não conseguir fazer mais nada depois de nove, dez, onze, doze horas fora de casa. Chegamos a casa ao nosso refúgio e afogamo-nos no facebook a ver pedaços da vida dos outros ou fazemos zapping, a passar de canal em canal e a não conseguir parar, porque nós não fomos feito para programar. A vida corre muito depressa, e corremos o risco de a ver passar ao lado. 

O que não nos disseram é que não é por corrermos atrás da vida que ela não é desperdiçada. A vida é vida. Não há manual, não há certos e não errados. Não há uma legislação, não há sucesso e não há fracasso. Ainda assim insistimos em seguir de forma obediente as regras que nos são instruídas, o controlo que diz que devemos fazer isto ou aquilo, a trocar o tempo por dinheiro que já gastámos antes de o receber e a ficar cada vez mais endividados até não termos mais tempo, nem dinheiro e nem saúde.

Depois da Mudança, ficamos nós. Sem guias, sem orientações. Apenas aquilo que sentimos e achamos correcto. É assustador, é libertador. A diferença é que agora, só nos podemos culpar a nós próprios mas antes isso do que estar sentado no sofá a dizer mal da vida porque temos o mesmo emprego há vinte anos e nos sentimos esgotados, escravizados, sem energia, sem vida, porque apenas fizemos o que nos disseram que era suposto fazermos.

A única coisa que é suposto fazermos é viver, sabendo que não é preciso chegar a um ponto de esgotamento nervoso para sabermos que precisamos de paz nas nossas vidas ou que não é preciso nos entupirmos de comprimidos para dormirmos o dia todo para que dar valor a sermos activos, a correr, a fazer exercício. Não precisamos de muletas e não precisamos de mudar o que somos, apenas temos que mudar aquilo em que nos tornaram, aquilo que nos deixámos tornar.

E aí seremos nós próprios pela primeira vez em muito tempo.

Sunday, December 13, 2015

Manifesto sobre o acto de mudar

 Mudar de vida. Esta declaração é algo constante nas nossas vidas, muitas das vezes até talvez dita de forma leviana. Ou pelo menos é assim entendida, porque aquilo que é feito é bem diferente daquilo que é dito. A verdade, crua e dura, é que estamos numa sociedade que nos deixa poucos espaços para mudanças. Numa sociedade onde é mais importante aprendermos naquilo que poderá dar mais dividendos financeiros do que propriamente naquilo que gostamos – um dos graves problemas do nosso sistema de ensino, entre muitos. Então sentimo-nos presos. E dizemos ao mundo, aos amigos ou apenas a nós próprios, que queremos mudar de vida.

Mas não fazemos nada. E nada muda. A não ser que a mudança que algo apareça, que algo aconteça.
Desde hábitos, forma de estar até ao emprego, para tudo aquilo que não gostamos a mesma linha de acção: unicamente dizer “tenho que mudar de vida”. Projectamos para o futuro esse acto porque no presente não acreditamos que isso possa acontecer. No presente não sentimos que tenhamos força para tal. E colocamos aquilo que deve ser a nossa tarefa nas mãos de algo indefinido e incerto como o futuro. Recusamo-nos a viver no presente e ansiamos por um futuro que à partida colocamos como inalcançável. Por medo do que mudar de vida representa, por medo de perder o conforto que achamos que não podemos viver sem. Se fôssemos a traduzir palavras por imagem, seria como não querer deixar a prisão apenas porque a cama tem colchão.

Vivemos em prisões mas antes de culpar a sociedade, o governo, o ensino, o patrão do emprego que odiamos, na verdade temos que nos culpar a nós próprios porque a porta da prisão está aberta. Apenas acreditamos na ilusão de que a mesma está fechada, tapada por vários medos que temos. Então precisamos sempre de coisas exteriores que nos salvem dessa prisão. A nossa ideia de mudar de vida passa exclusivamente pela necessidade em ganhar o euromilhões, como se uma quantidade obscena de dinheiro fosse o suficiente para nos dizer o que quereríamos fazer na vida. Na verdade, aquilo que o euromilhões permitiria imediatamente seria libertar da prisão na qual nos sentimos presos no quotidiano.

E saíssemos da prisão? Não procuraríamos por outra onde nos sentíssemos agradavelmente e confortavelmente adormecidos? É uma questão que certamente provoca um longo debate e com variadas opiniões. Aquilo que é importante reter é que a prisão onde sentimos que estamos a cumprir pena, foi construída por nós próprios. Uma prisão de medo do futuro, insatisfação pelo presente e sentimento de perda pelo passado.

A chave para libertar da prisão começa por viver o agora. O mudar de vida começa agora. Por agir da melhor forma com aquilo que somos, com o viver ao máximo a nossa expressão como seres individuais com qualidades e defeitos únicos. Permitir-nos a aceitar o dia de hoje como o ponto de partida para a mudança que tanto precisamos e queremos. Não como uma fuga do presente, mas como início do caminho para aquilo que somos.

A mudança começa agora.

Monday, August 03, 2015

Para O Infinito E Mais Além

Apenas uma pequena questão... quando não se sabe onde se está, como ver para a frente? Como visualizar caminhos ainda não explorados? Provavelmente é o que separa os meninos dos homens, aqueles que sonham e aqueles que não o sabem fazer, que já se esqueceram ou que nunca souberam. Quando estamos inseridos num meio em que a capacidade de sonhar é mutilada em prol do estar inserido no mundo real, de abrir os sentidos e mentes ao que nos é dito no telejornal, sobra muito pouco para que se consiga sonhar. Sem julgamentos, sem receios, sem ter aquela voz que nos diga "o que é que estás a fazer? Estás a perder tempo com parvoíces, não sabes que isso é impossível?" Somos de tal forma bem programados que já nem precisamos da sociedade para nos deitar abaixo. Ela deixa em nós um fiel representante e porta-voz. 

O ser difícil não o torna impossível. Não é, desde que não se perca a coragem de sonhar, não interessa o quê, não interessa se é impossível, ridículo. Temos que sonhar, temos que arriscar deixar ir, deixar-nos ir sem que ninguém tenha algo a dizer, afinal ainda não pagamos impostos por sonhar.


Ainda...


Voemos!

Tuesday, March 17, 2015

O Arco-Íris

Quase dez anos de arco-íris, inicialmente um projecto em conjunto, actualmente apenas mais uma forma de expressão de um indivíduo. É uma boa metáfora para aquilo que começa de uma forma, com vista um objectivo e que conforme o tempo e a vida avança, esse objectivo desaparece, torna-se oculto ou simplesmente se dissolve, como fumo sem que se dê conta. Haverá sempre o momento em que se encontra ter algum espaço e discernimento para perguntar...


"Afinal, o que é que estamos aqui a fazer mesmo?"

Conforme vamos andado pelo nosso caminho, vamos largando aquilo que não nos interessa, sendo que muitas das coisas que não interessam simplesmente se dissolvem em fumo como referi atrás. Existem aqueles, como eu, que continuam com as coisas por simples teimosia, e que se recusam a deixar o quer que seja para trás, mas que nunca se esquecem daquilo que querem e podemos resumir a humanidade num só desejo, o desejo pela felicidade. Todas as acções, todas as hesitações, tudo tem por trás esse desejo pela felicidade. E é uma boa forma de sintetizar também o que se procura por aqui, no arco-íris. A felicidade. Uma forma de através de palavras chegar-se a um estado diferente de percepção e lucidez das coisas mais banais da vida, um estado mais sincero do caminho onde se está de momento. O que pode levar a uma outra questão:


"Onde é que estamos agora no nosso caminho para a felicidade?"

Se a nossa felicidade fica no fim do arco-íris, então enquanto o tivermos à nossa frente, sabemos que estamos no caminho certo. É isso que precisamos que não caia no esquecimento ou que se dissolva no fumo, o saber de que precisamos de manter aquilo que queremos no horizonte, mesmo que não se sinta agora no momento, mesmo que se sinta que está longe demais. Só estará longe demais se não estiver no horizonte. O arco-íris não é o objectivo, o arco-íris é o caminho para a felicidade, e aquilo que de vez em quando vou partilhando aqui não é mais do que pequenos apontamentos desse percurso. Tal como este.

Friday, December 19, 2014

Mar de Tempestades

"Não podes parar as ondas mas podes aprender a surfar" - Jack Kornfield

Por vezes vemos-nos no meio de um vasto oceano, rodeados por água, sem ter por onde ir. Por vezes somos apanhados por temporais. E embora por vezes nos conformemos com esse destino, dizendo a nós próprios que não vale a pena lutar, que não vale a pena fazer o quer que seja porque dá muito trabalho, outras entramos em pânico e queremos fugir o mais rapidamente possível do sítio, o que nos deixa em pânico porque a única coisa que temos à nossa volta é água. Esse sentimento de pânico é incrementado quando as ondas começam a cair em cima de nós, quando nos vemos apanhados no meio de uma tempestade. Dizemos a nós próprios que não queremos estar naquela situação, não queremos estar ali. Dizemos como se fosse um mantra, como se fosse as palavras mágicas para sair dali, mas nada muda. Na verdade, tudo piora. Ingenuamente, ou não, dizemos, gritamos que não queremos estar ali, gritamos por socorro, que alguma força divina nos salve, nos tire daquela situação, mas o que isso parece fazer apenas é criar mais ondas para nos cair em cima.

Quando a resistência se instala, queremos fugir por nos sentirmos irremediavelmente presos, seja por estarmos em situações que não gostamos, que nos obrigam a passar por desafios que nos deixam desconfortáveis ou dos quais não sabemos se vamos conseguir superar. E quando mais nos debatemos, quanto mais resistência temos mais resistência criamos, pior será porque não conseguimos mudar essa condição. Porque ela não depende de nós. Não conseguimos que as ondas parem de cair em cima de nós quando estamos no meio da água, nem temos hipótese de nos teleportarmos para um sítio seco. A melhor forma de fugirmos às ondas, será colocar-nos de maneira a que ela nos transportem para fora. Em vez de lutarmos, devemos deixar-nos ir pela corrente, fazer e dar o nosso melhor e quando repararmos, já estamos com os pés na areia, em terra firme. 

Quando deixamos a resistência para trás e temos alguma paz de espírito dentro de nós, podemos ouvir aquela voz que nos diz com todo o amor...

"Estás na água porque precisas de aprender a nadar."

Saturday, October 04, 2014

O Dia em Pleno

Estou irritado com a minha conformidade, estou inconformado com a minha apatia. Embora por vezes me surja de forma dissimulada e me contagie e envolva sem me aperceber, existem dias em que a lucidez me invade e eu consigo, com mistos de ansiedade e revolta, quebrar com o padrão. A questão é que… eu sei que não dura muito tempo. Este estado é o mortal consciente da sua mortalidade, que sabe que o tempo é curto e que tudo pode desaparecer de um momento para o outro. Se tivéssemos noção da nossa pequenez, da nossa mortalidade, da rapidez com que tudo o que temos e somos aparece e desaparece, talvez o vivêssemos mais a fundo, talvez vivêssemos em pleno. Cada dia é uma oportunidade para algo. Temos as manias das grandezas e não paramos para ver e sentir os pequenos detalhes. Os eternos e pequenos detalhes. Aquelas coisas que estão lá sempre, e que por vezes, apenas damos conta quando não conseguimos ou quando não podemos. Aí é que aparece o drama dos detalhes, dos abraços, das mensagens, de tudo aquilo que poderia ou deveria ter sido feito mas não o foi.

Hoje. Hoje é o dia. Hoje é o dia para ser espremido até à exaustão, para ser retirado tudo o que ele nos tem para dar. E não tem que ser uma lista de coisas, uma lista enorme de coisas, palpáveis e quantificáveis. Apenas tem que ser chegar ao final do dia e sentir… hoje fiz tudo o que podia fazer. Estou em paz. Com o mundo mas principalmente comigo.


Esse sentimento de paz… é o sinónimo de viver o dia em pleno. É o que eu quero.

Tuesday, June 17, 2014

Equilíbrio

Há algo de engraçado como nós, portugueses, vivemos as coisas. Digo nós, portugueses, porque é a realidade que conheço, minimamente, e aquela onde estou inserido. Costumam dizer que somos um país de brandos costumes, ou pelo menos, é essa a nossa imagem de marca. Será que corresponde inteiramente à verdade? As reacções à derrota de Portugal é mais um exemplo de como andamos nos extremos, seja da apatia seja da exacerbação idiota. Já vimos este filme antes, não já? Uns anos atrás, no mundial da Coreia, quando a selecção saiu do nosso país para estagiar para Macau, uma escolha nunca totalmente esclarecida, o nosso primeiro ministro da altura – o tal que tinha visto armas de destruição maciça no Iraque quando elas não existiam – mandava um apelo entusiástico para a selecção, “tragam a taça, tragam a taça!”. A selecção teve uma das piores prestações de sempre colocando as expectativas de todos no lixo.

Não é só o futebol. Na verdade, o futebol é apenas uma desculpa, apenas uma pequena amostra daquilo que somos. Peguemos na política. Queixamo-nos do governo mas na hora de votar, a abstenção é sempre  a vencedora. Tudo bem, é um sinal do descontentamento com a classe política, dizem alguns. Talvez. Existem sempre partidos que não têm hipótese de chegar ao poder e que servem bem para mostrar o descontentamento fazendo uso do poder do voto. Contudo, na hora de fazer alguma coisa, esperamos sempre que a situação mude por nós e que tenhamos razão para continuar a criticar. E os que votam… votam num partido (de poder) para nas eleições seguintes votar no outro partido (de poder). A oposição deitou abaixo o governo de Sócrates por causa das medidas que queria implementar para impedir a entrada da Troika. O governo que foi para lá, da oposição, colocou em prática todas as medidas que foram vetadas em parlamento e agravou-as como consequência da intervenção do F.M.I.. No entanto, já ninguém se lembra do orçamento de estado que ditou a queda do governo. De esquecimento em esquecimento, acreditamos naquilo que a televisão ou os media nos diz e obedecemos como boas ovelhas para quando berrar mais alto ou nem sequer berrar. Como ratos num labirinto, continuamos a seguir os pedaços de queijo que nos deixam apenas num beco sem saída.

Voltando ao tema inicial, o futebol é bom para termos noção desses extremos. Daqueles que falam quando a equipa dos outros perde e dos que se calam quando a sua perde e ficando ofendidos pelos outros fazerem aquilo que eles próprios fizeram pouco tempo antes, revelando a tal memória muito curta. É o desporto rei, arrasta multidões, tem um efeito positivo nos jovens, unindo a sociedade, embora também tenha também os seus lados menos positivos, como a corrupção, o fanatismo e a violência causada por aqueles que o vêem como apenas uma desculpa para se sentirem superiores aos outros, já que não o conseguem fazer de outra forma nas suas vidas, preenchidas por pouco mais.

Toda esta questão serve apenas para dizer que nem o futebol é a melhor coisa do mundo, nem é o anticristo. Nem o Ronaldo joga por 11, nem devia ter ficado em casa. Nem somos os melhores do mundo, nem somos os piores. O que o futebol é, tal como a política, tal como a arte, tal como as coisas importantes, tal como as coisas frívolas, tal como tudo que seja passível de causar paixões e ódios, algo que nos despe e nos revela tal como somos, para o melhor e para o pior. E o que somos é desequilibrados. Bom senso é uma palavra cujo significado cada vez nos escapa mais.

Vivemos demasiado as vitórias que ainda não conquistamos e enterramos demasiado cedo os vivos que ainda não estão mortos. Esperamos demasiado que as soluções que precisamos venham dos outros e não de nós próprios. Que os problemas se resolvam por eles próprios. Colocamos demasiado as nossas esperanças em felicidades momentâneas e condenamos ou colocamos em causa rapidamente tudo o resto quando essas esperanças são beliscadas.


Se calhar os brandos costumes vem do facto de seguirmos a corrente sem questionarmos se queremos sequer estar no rio.

Friday, March 14, 2014

Breve Ensaio Sobre O Medo Pt. 2: A Mudança

Quando o medo se instala por alguém, as nossas acções condicionam-se. Imagina-se a pessoa a sair da nossa vida e sente-se um pânico, um aperto no coração difícil de suportar. Pensa-se "como posso viver eu sem tal pessoa?" Quando aquilo que é uma fantasia doentia começa a ter reflexos na realidade, o pânico leva ao desespero e tudo começa a ser permitido. Tudo é opção para não se perder aquela pessoa que se sente está a perder. E quanto mais se faz, mais a pessoa se afasta, quanto mais se esbraceja e esperneia, mais aquilo que não queremos se torna iminente.

Antes de chegar a este ponto, existe um outro, não menos saudável. As pessoas estão juntas, em qualquer tipo de relação (amorosa, amizade, profissional) quando faz sentido. Quando há algo natural que as mantém próximas ou em contacto. Quando há algo que faz mudar essa proximidade e uma das partes não quer perdê-la, tenta-se mudar algo para que essa proximidade volte a ser o que era. Quando as mudanças são naturais, não existe nada que se possa fazer para tentar recuperar o que já foi e não é no momento. Ou se aceita, ou perde-se muita energia a resistir a tal até que não se tem alternativa - por vezes, bastante tempo depois - e tem de se aceitar.

E quando as mudanças não são naturais? Quando alguém muda apenas para agradar outra pessoa que supostamente lhe diz que a aceita tal como ela é, mas na verdade, critica sempre quando há manifestações de comportamentos que considera inaceitáveis. Comportamentos que fazem parte da personalidade da pessoa. Ela muda. Anula-se a si própria. Em nome do amor, em nome de uma carreira, até em nome de uma amizade.

"Eu gosto do amarelo"
"Não é correcto que gostes do amarelo"
"Ok... posso gostar do vermelho?"
"O vermelho... também não é de bom tom. Como é que alguém pode gostar do vermelho? E o verde, o verde é bonito. Tu agora gostas do verde."
"Eu adoro o verde desde sempre, é a minha cor favorita."

Pode-se mudar o que se quiser, pode-se fazer o que quiser, mas a verdade é que ninguém está tanto tempo connosco do que nós próprios e quando se quer agradar, tentar prender alguém, anulando o que se é... quando se tenta ser de forma pouco natural o que não é, quando se tenta mudar as condições... acaba-se sempre com a mesma pessoa de sempre - nós próprios - e um espelho à frente, para nos lembrar de que há certas coisas que não se conseguem mudar. Certas coisas nunca vão ser mudadas, por muito que nos enganemos a nós próprios. O espelho nunca engana, mesmo quando se está de olhos fechados ou de costas voltadas para ele.

Thursday, November 21, 2013

Verdade


A facilidade com que se arrumam pensamentos, crenças e leis é fascinante. A forma como se quer, se precisa, de construir paredes entre esses pilares, construir uma casa sobre essas fundações, acreditando ou querendo acreditar que elas são fortes, tão fortes como uma cabana que se invade no meio de um furacão apenas pela a necessidade de se proteger e a insistência em se lutar pela sobrevivência. Mais fascinante é assistir ao desabar dessas fundações, frágeis, débeis, apenas porque há algo mais forte que as deita abaixo deixando o sobrevivente com duas opções:

- Reconstruir o que ficou para trás;
- Continuar como se nada tivesse acontecido

A primeira hipótese pode ter como sinónimo alguém que perdeu a fé ou vontade de continuar por sentir-se enganado e traído, muitas vezes acusando-se a si próprio por esse crime. A segunda hipótese é provavelmente mais comum. Abanar as estruturas daquilo que se considera como sendo a verdade pode ser de tal forma violento que a pessoa pode simplesmente preferir fingir que tal nunca aconteceu. Prefere criar a sua própria realidade.

Já houve o tempo em que considerei tal opção como a coisa mais irritante que poderia haver e como tal, sempre que me via confrontado com alguém assim, de uma forma egoísta, tentava abanar esses dogmas ao ponto de deixar as pessoas na dúvida. Muitas vezes, esse tipo de atitude explodiu-me na cara mas mesmo assim, acreditava que era o que devia ser feito. As pessoas não deviam ficar confortáveis numa fé, crença ou suposto facto histórico que não corresponde à verdade, pensava eu.

Bem... o que é a verdade?

Hoje em dia sei que a existir uma verdade, ela não está ao alcance de nós, simples e complexos mortais, cheios de emoções e lógica a combater dentro de si, entre si pelo poder. A verdade depende sempre do sítio onde está a pessoa que a completa. Outra pessoa do lado oposto, a ver uma uma outra versão da verdade... estará essa pessoa errada?

Talvez se arrume pensamentos, crenças e leis facilmente, de uma maneira simplória, talvez o ser humano se encoste a isso por ser mais fácil, para não ter que pensar, não ter que sentir, apenas agir automaticamente porque foi assim que lhe ensinaram, é assim que o mundo funciona e será assim que ensinará a todos aqueles que vierem depois dele. Ter a mente aberta é perigoso, é instável. Podemos ser confrontados com coisas que julgávamos não ser possíveis, podemos ver as pessoas de forma diferente, podemos ser obrigados a ver o mundo de forma diferente. E por vezes não queremos ver o mundo de forma diferente. E esse é o direito que nos assiste.

Esta é a maior barreira que pode existir para o despertar, o ter medo de ver aquilo que é. No entanto, esse mesmo despertar, duradouro e verdadeiro pode ser causado por imposições do exterior, mas terá de haver a chama interior que o alimente. Somos o combustível para a mudança que acontece à nossa volta. Somos o combustível para a mudança dentro de nós. Estamos inseridos num mundo que nos desafia, cada vez mais e somos obrigados a dormir profundamente para seguirmos com o resto da manada ou a acordar e escolher o próprio caminho. O mundo à nossa volta pode fazer muito ruído para nos fazer acordar, mas a escolha para abrir os olhos e nos levantarmos é sempre nossa.

O despertar vem com a consciência de que não há verdade, mas que também não há mentira. Há o que É e nada pode alterar isso.

Sunday, May 19, 2013

A Galinha Da Vizinha É Melhor Que A Minha

A propósito do futebol, há algo que continua a surpreender-me nos seres humanos, em geral - não só aos adeptos de futebol em particular. A capacidade que existe em ganhar conforto pelos fracassos dos outros. Ou seja, a melhor forma de encontrarem alguma paz, alguma alegria nas suas vidas, através dos revés, falhanços, azares, tristezas nas vidas dos outros. Ou seja, a única coisa positiva na vida dessas pessoas é aquilo que é negativo na vida dos outros.

Não será uma forma preguiçosa de trazer sentido e bem estar ao seu quotidiano? O que seria destas pessoas quando à sua volta está tudo em. Imaginemos que o vizinho não foi despedido, nem que o filho do vizinho não chumbou de ano, ou que a mulher do vizinho não tem uma relação extra-conjugal. Agora imaginemos que a pessoa que usava estas pequenas coisas para se elevar acima ("ao menos não o meu marido não foi despedido, ao menos o meu filho não chumbou, ao menos a minha mulher não me traiu"), só tem bem estar e sucesso à sua volta. Do que é que ela se vai alimentar? E acima de tudo, se ela não tiver estes factores externos, o que é que ela vai arranjar para encarar de melhor forma a sua própria vida, aquela que considerou não ter interesse ao ponto de ter que arranjar factores de interesse exteriores a si?

Bem, se calhar o exemplo é um pouco irreal... As pessoas que normalmente se alimentam da miséria alheia nunca têm casos de sucesso à sua volta, porque assim algo de bom acontece, a tendência é sempre para minimizar: 

"Arranjou emprego? Deve ter sido cunha, nunca quis trabalhar na vida."
"Passou de ano? Deve ter sido milagre, é burro como uma porta e só faz asneiras."
"Vão num fim de semana romântico? Coitado, se soubesse o que dizem da mulher dele."

Mesmo quando não há algo negativo, as pessoas têm que arranjar assunto para conversar, as pessoas precisam de falar, as pessoas precisam de assunto, de algo que as afaste das suas vidas, porque quanto a essas já perderam qualquer esperança que se torne positiva.

Thursday, February 14, 2013

Saída Parte 3

O nosso caminho tem sempre aqueles momentos em que olhamos para trás por não se encontrar nada de interessante no local onde nos encontramos agora e quando o futuro parece ser um grande vazio. Então olha-se para trás com esperança.

"Ah, se eu encontrasse aquela pessoa novamente... como será que ela está? "

Normalmente, costuma haver uma certa nostalgia e uma certa dor porque esses exercícios mentais não passam disso mesmo. De exercícios mentais, em que não podemos fazer nada. As pessoas não estão ao nosso alcance. Saíram da nossa vida, por nossa decisão ou inércia, e no momento em que temos esta vontade doentia de reviver o passado no presente, acabamos por concluir que não há nada que possamos fazer para mudar esse estado.

No entanto, também é possível viver no presente, sem ter uma visão propriamente pessimista do futuro, para que o passado se cruze connosco. Ver as mudanças físicas, ver como tanto mudou, como tanto tempo passou sem que se desse conta. Como a vida passou, não só no nosso lado mas como também do outro. Como a vida, de certa forma, passou por nós, e em certos momentos, inevitavelmente, passou por cima de nós.

As pessoas saíram da nossa vida e descobrimos que por vezes não conseguimos controlar nada, que muitas das vezes, mesmo que façamos um esforço, as pessoas saem da nossa vida. E até podem nem existir motivos palpáveis, até pode ter escapado ao nosso controlo, à nossa compreensão. Não interessa. O que interessa ter presente é que a única pessoa que não devia ter saído da nossa vida é aquela que normalmente não sentimos falta quando se ausenta. Nós próprios.

Quando nós voltamos a casa, todas as saídas são encaradas de forma positiva, todos os regressos com um juízo, sem exagerados exercícios de nostalgia que nos distraem daquilo que é realmente importante. Aquilo que nos faz realmente viver, aquilo que nos faz realmente sentir, de forma verdadeira, de forma pura, sem ilusões.

O Agora.

Sunday, November 11, 2012

Breve Ensaio Sobre O Medo - Parte 1

Por muito esclarecido que se seja, é inevitável que num momento ou outro se sinta medo. Pelo futuro, pelo presente, pelo passado. Desde que nascemos, é-nos incutida a importância de ter coisas, de ter pessoas ao nosso lado, de ter uma família. No entanto, ninguém nos prepara para a eventualidade podermos perder tudo aquilo pelo qual se lutou para atingir e ter. Quando nos incutem essas coisas, incutem-nos o medo:

- Tens que estudar se queres ter um futuro.
- Tens que arranjar uma mulher/homem se não quiseres morrer sozinho, sem ter ninguém para cuidar de ti.
- Tens que ter um trabalho para poderes pertencer à sociedade.
- Tens que conviver para poderes ter amigos e te sintas integrado.
- Tens que estar informado para que possas discutir assuntos da actualidade com os outros.
- Tens que gostar desta banda, daquele desporto, daquele filme, daquele programa de televisão para que não te sintas de parte.

Temos que fazer todas estas coisas para afastar o medo. E quando não o fazemos, porque não nos interessam as consequências, vemos gestos de reprovação e ouvimos discursos de condenação. Por não termos medo. Ou por simplesmente não nos importarmos. No entanto, numa coisa ou outra, e considerando que não somos completos forasteiros, o medo acaba por ser sempre o senhor. Porque quem nos incute o medo, também o teve em si incutido, sendo apenas mais uma peça numa engrenagem que tem tendência para se perpetuar.

O medo é útil, para nos protegermos, para termos algum cuidado com os nossos objectivos, para não nos perdermos e tenhamos sempre um pé assente no chão. O problema é quando o medo é usado contra nós e não temos confiança em nós próprios porque todas as nossas vidas nos disseram que tínhamos que ir aonde todos foram e vão se quiséssemos ser alguém. Tínhamos que procurar o sucesso, não aquilo que a nossa voz interior nos diz. Até que chegamos a uma altura em que não reconhecemos mais a nossa voz. Correcção, não a chegamos a conhecer, tal como as pessoas que nos criaram não conheceram a sua. Porque não é suposto fazer o que queremos, não é suposto fazer o que sentimos. Se assim fosse, não haveria necessidade de ter medo. Bastava sentir. Mas não é suposto sentir, não é suposto saber, é suposto manterem-nos adormecidos, e habituarem-nos a não questionar.

Até que chegamos a uma altura em que se está cansado de sentir medo, de não questionar, de não saber, de não sentir.

Tenho medo, por muito orgulho que me custe admitir. Medo de ser um fracasso, de não conseguir atingir os fins a que me propus. Medo de falhar porque fui criado num mundo onde o erro é punido, apontado, visto de lado. Queria estar num momento da minha vida em que não teria de ter mais medo, em que o conseguisse superar definitivamente. Por momentos, julgo que consigo atingir finalmente esse estado, mas noutros, tenho a dolorosa confirmação de que ainda me falta um pouco. 

Apenas mais um pouco.

Tuesday, August 07, 2012

Liberdade

A minha vida tem uma grande lição. Uma lição que não é fácil aprender mas que tento sempre caminhar nesse sentido. Normalmente esqueço-me sempre dela, nos momentos de maior fraqueza, de maior dificuldade. Nos momentos em que preciso dela, sobretudo.

Sempre me custou largar coisas. Largar pessoas. Olhar para trás e verificar que algo ou alguém foi deixado. Que não acompanhou. Sentimento de perda. Enorme gigante. Com coisas insignificantes. Como querer dar a mesma atenção a tudo de forma igual de forma a atingir o equilíbrio mas que depois só resulta em só se dar atenção a umas poucas coisas e nem são aquelas que nos dizem muito.
Deixar pessoas. encontrar aquele colega que não vemos desde os tempos de escola e com cada ano a passar lentamente mas de forma dissimulada, só nessa altura nos apercebemos que já passaram mais de 15 anos.

E o vazio bate.

Não gosto do vazio, sempre fugi dele a todo o gás, mas acho que dessa forma o alimentava. Ao tentar carregar comigo tudo o que podia, não deixar nada para trás, apenas consegui falhar totalmente nos meus objectivos e sentir-me... vazio. 

"Falta algo"
"O quê?"
"Não sei"
"Então leva tudo"

Até que a vida nos ensina que não podes levar tudo, a vida ensina-nos que há pessoas que têm que partir, e que as memórias das mesmas não servem apenas para nos lembrar que já não as temos. Que há coisas que têm que se perder e que... no final do dia... são apenas coisas. Coisas que se ainda as tivéssemos, não iriamos dar atenção.

Não é fácil largar. Não é fácil recomeçar. E muito menos, não é fácil destruir para recomeçar. Acabar para começar. Novamente. Sem planos, sem guias, sem dogmas. Perdidos na selva de nós próprios. Talvez sem mapa, sem regras, sem expectativas é quando se encontram as melhores coisas das nossas vidas. Principalmente porque nessa altura, sabendo a sua mortalidade, as iremos aproveitar ao máximo.

Ou assim deveríamos.

Thursday, April 26, 2012

A Socialização Parte 2 - Inimigo: O Silêncio

Mais difícil do que ser obrigado a socializar com pessoas estranhas é ser obrigado a socializar com pessoas conhecidas. Pessoas que se conhece desde sempre. Pessoas para as quais já não há novidades. O acto de socializar frequentemente com alguém implica a que a uma certa altura se chegue ao temível ponto do...



S     I     L     Ê     N     C     I     O


Quando as duas (ou mais) pessoas não se preocupam com isso, não há problema. 

Quando uma delas começa a entrar em paranóia consigo mesmo sobre arranjar coisas para dizer, o desespero pode levar a dizer coisas como "pois é, pois é, está frio hoje. E o Benfica, hã? Ele há coisas..."
Ou algo pior que isso, comentarem-se notícias dos telejornais. Se formos a pensar bem, a verdadeira razão dos telejornais terem audiências é porque as pessoas precisam desesperadamente de algo para dizer. Precisam de encontrar motivos de conversa. E como as suas vidas não lhes proveem material interessante o suficiente, têm que recorrer a fontes externas. É por essa razão que há tanta revolta quando os telejornais repetem notícias ou pior... têm que recorrer às vidas das pessoas quando não ocorre nada no mundo/país. O que não deixa de ser irónico. Então, as pessoas que julgam não ter vida e que recorrem ao telejornal para terem assunto, acabam por elas próprias serem notícia pelo simples facto de... pintarem o carro de verde e branco, porque o Sporting ganhou... qualquer coisa.

Mas o pior é quando um delas começa a entrar em paranóia com a outra para que ela fale. O que leva a que a outra começa a entrar em paranóia com ela própria e com a outra que quer que ela fale. Obviamente que o resultado de tanta paranóia junta só pode levar a mais...



S     I     L     Ê     N     C     I     O




A minha conclusão é... acho que o silêncio está subvalorizado.

Wednesday, February 15, 2012

The Thing That Should Not Be Pt 1

Quantas vezes não deram de frente com situações que julgavam impossíveis, com a quebra de momentos que julgavam intermináveis, relações que chegam ao fim quando nada fazia prever isso, relações que começam quando também nada fazia prever isso? Provavelmente nem deram conta disso, se têm um espírito aventureiro, se gostam de mudança, se precisam dela. Eu sou o oposto. Eu gosto da rotina, gosto da segurança mas é engraçado verificar como a vida faz as coisas por mim. Cada vez que eu quero me acomodar a algo, a pessoas, a ambientes, seja o que for, a mudança aparece. A mudança imprevisível. A cada vez que penso que estou a estagnar, que preciso de uma mudança para a minha vida, quer profissional, quer a nível pessoal mas que não tenho o discernimento para a encontrar ou coragem para a encetar, a vida trata das coisas por mim. 

Mais do que engraçado, chega a ser irónico, colocar limites a mim mesmo, coisas que disse que nunca ia fazer e quando dou conta, já as faço há meses, anos. Como uma cena do filme da Joia do Nilo em que a personagem do Danny  DeVito está a passar por uma espécie de iniciação no grupo que protege a Joia. Essa iniciação consistia em andar descalço por cima de brasas incandescentes. A primeira reacção foi de recusa que fosse capaz de o fazer e de medo pela dor que podia provocar tal prova. Ao falar com a pessoa que o estava a iniciar, começou a andar reparando apenas alguns metros depois que já estava a caminhar pelas brasas sem se aperceber. Acredito que muitas vezes a nossa vida é assim, faz-nos caminhar por brasas sem nos apercebermos que o estamos a fazer. E quando damos conta, pensamos para connosco próprios:

"Afinal não era assim tão difícil."

Se calhar, só precisamos de ter alguém com quem falar para nos distrair e não nos fazer pensar nas brasas que os nossos pés descalços estão a pisar.

Wednesday, November 23, 2011

Anatomia De Um Desastre de Viação

O ser humano é complexo. O seu principal objectivo é a felicidade e ele faz tudo (ou quase tudo, dependendo do indivíduo) para a atingir ou mantê-la. O problema do ser humano é que ele não consegue controlar totalmente o meio em que se insere, nem as coisas que surgem no seu caminho, por muito que ele tente evitar, fugir, escapar, o destino inevitavelmente vai ao seu encontro. Entenda-se por destino a desgraça.  O ser humano antes de ter um acidente de viação é um ser incompleto. É um ser insatisfeito, em luta consigo próprio para que seja aceite pelos amigos, para que tenha sucesso no trabalho, por aquela rapariga que não lhe liga um corno fique loucamente apaixonada por ele. Após o acidente e, fazendo uma suposição, com alguns membros a menos, o ser humano recorda a altura anterior como o momento em que era feliz. Tudo aquilo que o punha miserável, tudo aquilo que o deitava abaixo perde o significado, porque agora ele tem algo realmente mau, e como tal, precisa de escapar do presente. Em vez de se projectar num futuro positivo, projecta-se num passado irreal que nunca existiu. A criatividade do ser humano, mesmo aqueles espécimes que dizem ser desprovidos da mesma, manifesta-se de forma dissimulada. 
O ser humano passa por imensos desastres ao longo da sua vida. Pessoas que vão e vêm, desgosto, raiva, dor, dor, dor e... dor. O problema do ser humano é algo chamado ego e o que o ego faz é aumentar a dor presente para níveis insuportáveis. Criar conflictos, guerras internas porque é o que ele faz. Culpa, remorso, julgamento, emoções descontroladas. O ser humano é o seu pior inimigo e os acidentes de viação só servem para criarem novas guerras. Todos temos acidentes de viação durante ao longo da sua vida, todos esses mesmos acidentes abalam, mais ou menos, a felicidade a que se propõe atingir. O que o ser humano tem dificuldade em conseguir ver é que a felicidade que ele procura não está no momento anterior do acidente e sim posterior. Embora a sua criatividade para arranjar formas de se torturar a si próprio seja grande, a incapacidade de discernir, de improvisar, de largar o que não interessa para trás, adaptar-se e continuar é bem maior.

No fundo, sabendo ou não isto, continuamos todos a tentar a fugir do próximo acidente e a correr simultaneamente para ele sem nos apercebermos.

Monday, September 12, 2011

Amigos

O que move o ser humano para gastar energia a por outro ou outros para baixo? É algo que me escapa, sinceramente, ao entendimento. Muitas das pessoas que dizem...

Eu merecia ser feliz, porque é que eu não posso ser feliz?

...também acabam por dizer... 

Ele/a é feliz, porquê? Porque é que ele/a tem sorte de ter família, dinheiro, amigos, namorada/o e eu não?

...e acabam por desaguar muitas vezes no...

Odeio vê-los felizes! Quem eles pensam que são? Sempre aos sorrisos, sempre bem dispostos, sempre cheios de luz! Odeio-os!

Apesar de ao longo da minha vida ter lidado com pessoas assim e apesar de ter considerado algumas como minha amigas e pensar, talvez ingenuamente, que ficariam felizes pela felicidade dos amigos, tal como os amigos certamente lhe desejam, o que é certo é que acabo por encontrar pessoas capazes de dispender energias a impedir que os outros sejam felizes. A inveja. É certo que poderão dizer...

São apenas pensamentos.

Já se sentiram mal com pensamentos que tiveram? Pensamentos de desconfiança, pensamentos de dor, pensamentos de raiva. Já se sentiram esgotados? E são apenas pensamentos. Nós somos o que pensamos. Mesmo que usemos uma máscara para ocultar os nosso pensamentos, nós somos o que pensamos. E o peso das máscaras ainda nos esgota mais. O que me leva a pensar ainda mais que as pessoas que não se contentam pela felicidade dos outros. Essa felicidade devia ser um motor para que também a tentassem arranjar para eles próprios.

Mas não. Estas pessoas vêem-se tão fatalmente envoltas em merda que querem que acham que é mais fácil os outros também estarem na mesma condição do que elas próprias saírem do sítio onde se encontram. No entanto, não é isto que me entristece, estas pessoas agirem desta forma. O que me entristece é estas pessoas serem minhas "amigas" e de me colocarem numa posição complicada em que não sei em quem mais confiar. Quem são os meus verdadeiros amigos, quem não são? Será que quando me dizem, estou feliz por ti, será que estão realmente? Ou será que me estão a amaldiçoar nos seus pensamentos por ver a sorrir, por me ver mais leve?

Haverá sempre esquinas em que irei saber quem está realmente comigo e quem, por algum motivo, não me suporta ver feliz. Há sempre pistas, pequenos detalhes que revelam isso, mas nem sempre se tem a paciência, energia ou clarividência para ver para além do óbvio, mesmo quando o para além do óbvio é mais que óbvio.

Se sei que ter esse tipo de pensamentos é uma perda de energia, também sei que lidar com pessoas assim também o é. Não merece o esforço tentar compreender, não merece o esforço fingir que está tudo bem porque mais cedo ou mais tarde, a retribuição dessas acções voltam ao seu ponto de origem.

What comes around, comes around.

Sunday, May 15, 2011

Preocupações

O ser humano precisa de se preocupar. Quando não sabe com que se preocupar, preocupa-se até que essa preocupação seja preocupação suficiente para se preocupar. Não tem que ser assim, necessariamente. Não há necessidade de preocupação porque esta só serve para distrair e minar forças. E sim, isto é o que eu digo a mim mesmo quando me preocupo em demasiado com um assunto e sim, raramente anula essa mesma preocupação. Talvez o facto de me preocupar significa que realmente me importo, que realmente algo ou alguém tem valor para mim. O segredo, como tudo na vida, está em não deixar que essa preocupação se torne em obcessão ou desculpa para mergulhar, mais uma vez, nas profundezas. Infelizmente, não tenho que me preocupar por falta de preocupações na minha vida, desde económicas, familiares até sentimentais, e embora todas sejam familiares e o jogo diferente do que dos anteriores, o jogador também não é o mesmo. O único desejo é que essa diferença seja suficiente para superar as dificuldades e para que caso não as supere, não ser motivo para (mais uma) crucificação.

Ops... acho que encontrei mais uma preocupação...

Monday, January 31, 2011

A Socialização Parte 1

Não sei como se faz. É um mistério. Durante algumas fases penso que as pessoas passam todas o mesmo que eu, quando por exemplo têm que ir a uma festa de anos de uma pessoa que gostam bastante mas que depois não conhecem mais ninguém. O sentir deslocado num meio que apesar de não parecer (e admito, não o ser), torna-se ameaçador. Mas penso, na minha ingenuidade ou esperança - ainda não descobri qual das duas - que também as outras pessoas nesses eventos são como eu, que não querem sair de casa para estar a ensaiar sorrisos e não têm conversa nenhuma para fazer com pessoas que mal conhecem. O problema é que é preciso passar por esses momentos porque o ser humano é, para o bem ou para o mal, um animal social. No fundo todo o processo da socialização é para mim como ir ao laboratório em que tenho de fazer análises ao sangue. Fechar os olhos e pensar que é só uma pica e pronto.

O meu principal problema é que não me custa nada tirar sangue, agora estar com pessoas que não conheço em ambientes de festa... dá-me vontade de experimentar uma endoscopia rectal.

Sunday, December 12, 2010

O Silêncio Constrangedor.

Definitivamente não sei lidar com pessoas. Quando mais cresço, quanto mais evoluo num sentido mais desaprendo noutro. Acho que as minhas capacidades para a anti-socialização já são lendárias mas continua a ser difícil explicá-las ou fazer com que as aceitem, a quem não as consegue entender. Mas este é apenas um exercício vão porque na verdade, na maioria das vezes, não sou confrontado directamente. O único que o faz continuo a ser eu, no meu eterno exercício de auto-análise. 
Já falei algures (ou com alguém, ou comigo mesmo) sobre o desconforto do silêncio. Também já concluí que me deixou de incomodar como incomodava principalmente com pessoas que desconheço. No entanto, com as pessoas que conheço, a coisa é pior. Com pessoas que conheço e que chamo de amigas é ainda pior. Com pessoas que conheço e que chamo de amigas e por alguma razão não tenho uma conversa à muito tempo, é o supra-sumo da estranheza. Ali está aquela pessoa que conheço bem e de quem gosto mas que não sei o que dizer além do "tudo bem, como vai tudo, e o benfica, e o sócrates". E fico com vontade de arranjar mais assuntos porque ali estou eu com aquela pessoa que gosto e prezo e não consigo ter uma conversa de jeito. Talvez não consiga ter uma conversa de jeito com ninguém ou talvez elas apareçam sem serem planeadas, previstas.
Quando se tem uma vida calma e pacata, é difícil responder além dos tópicos acima enunciados. E se me faz confusão, como acho que já disse a alguém ou a mim mesmo no passado, as pessoas que me perguntam por novidades como se precisassem de algo novo nas suas próprias vidas, também me faz confusão eu próprio fazer essa busca, desesperadamente a procurar por algo que possa dizer. E procuro e procuro, e o desespero é tão grande que a única coisa que encontro é:

"Hoje acordei às 10h.Há bastante tempo que não acordava às 10h. Também me tenho deitado mais tarde, mas foi só durante estes dias que estive de férias, depois devo voltar ao normal."

E o silêncio volta, só que depois disto... é bem mais doloroso.